
A PASSAGEM
Rostos da terceira idade
A velhice não é só marcada pelas rugas no rosto, os cabelos brancos ou as dores de costas que nada consegue aliviar. Em Portugal, a terceira idade é marcada pela solidão e é assim que muitos terminam a sua passagem.
Quando nascemos, esperamos viver um conto de fadas, vidas longas, cheias de sorrisos e de pessoas para as completarem. Muitos passam este tempo a trabalhar, a cuidar de alguém, a aproveitar a doce juventude e até podem acabar por construir uma família. Mas como é que termina a história?
Infelizmente, ou não, as histórias são variadas. Assim como, nem todas começam com um “Era uma vez”, também, nem todas acabam com um príncipe encantado ou com uma princesa maravilhosa ao seu lado. O “felizes para sempre” pode ser uma ilusão que é contada ao longo da vida para evitar assim as preocupações que vêm com o vento e que chegam na velhice.
Era uma vez
A história de Irene Pires afasta-se do que é o dito normal. Sem desvalorizar a sua família, confessa que os laços que criou com a sua Aurora e com os seus amigos são o que tem de mais especial.
Mas quem é a Irene? Perdida nas montanhas do Gerês, mais especificamente em Rio Caldo, Ireninha, como gosta de ser chamada, é conhecida pelo sorriso contagiante, pela conversa fácil e pelos gatos que vivem com ela. Os cabelos lisos e curtos tornam os seus olhos ainda mais evidentes no rosto cheio de vivências. “Eu penso que sou novinha, não penso na idade que tenho”. Mas afinal quantos anos tem a senhora de 1,50m que vive numa casa de bonecas à sua medida? “Nunca digo que tenho 63 porque sinto que tenho 36 anos”.

Sempre trabalhou e foi num dos seus empregos que descobriu a sua “alma gémea”. Muitos pensam que o seu parceiro de vida será o seu marido, a sua esposa ou até os filhos. Aqui é diferente! Ireninha encantou-se com a sua colega de limpezas, a Aurora. E foi amor à primeira vista como acontece nas bonitas relações. “Ela foi uma mãe que tive a sorte de ter!”. E como todas as histórias de amor, também esta é inesquecível e deixou marcas na Irene. “Foram 50 anos a vivermos juntas, as recordações são maravilhosas”.
Os anos passaram e a Aurorinha já não faz parte da casa que partilhavam. Hoje, está presente nas inúmeras fotografias pela habitação. “Não sei explicar como é que foi acordar e já não ter aqui a minha velhinha. Foi muito duro!”, confessou com a voz mais fraca.
O adeus foi um momento marcante na sua história. Os seus traços ficaram mais tensos e as lágrimas cederam. “Quem me dera ainda olhar por ela”. Até ao fim! “A Aurora faleceu numa fria quarta-feira, 11 de abril”. Nunca esqueceu aquele dia que lhe tornou a vida cinzenta. “Sempre pensei que a minha velhinha ia voltar do hospital”. Mas ela não voltou.
Ficaram as recordações e as memórias de quando partilhavam a amizade. “Dizíamos, muitas vezes, gosto de ti!”. Não tinham receio porque sabiam que a vida passava rápido de mais para terem medos.
Perder a sua velhinha fez com que, para além de aprender a viver sem ela, começasse assim a lidar diariamente com a solidão.
Marta Vilas Boas, animadora da Anima Una, lida diariamente com idosos. A perda do companheiro(a) de vida é algo muito presente na terceira idade, acabando, por levar, por vezes, à profunda solidão. “A solidão é um mundo tão denso e impenetrável”. Em muitos momentos, acaba por ser silencioso. “O lugar onde estamos não é o que nos vai fazer sentir sós. Podemos estar rodeados de pessoas e sentirmo-nos sozinhos porque os outros não são capazes de aceder”. É um estado de espírito muito intrínseco.
Um estudo realizado em Portugal, em 2019, levanta a questão que, talvez, viver com alguém não é sinónimo de bem estar. Já que 62% dos inquiridos casados responderam que se sentia sós. 24%, a segunda maior percentagem foi referente aos participantes viúvos.
Para combater o tempo que passa sozinha surgiram novas paixões na vida da Irene. O amor pelos animais, principalmente pelos gatos fazem com que estes pequenos sejam considerados, pela Ireninha, família. Não tem marido, nem filhos, mas a companhia felina nunca lhe falta. “Comecei a fazer-lhes festinhas e nunca mais desapareceram!”, A verdade é mesmo essa. Durante o dia que vivemos com a Irene estivemos sempre acompanhadas pelos seus gatos.

Fonte: CINTESIS– Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, em parceria com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte.

É feliz? “Eu acho que sou! Nunca pensei acordar às nove da manhã, faço o pequeno almoço, acendo a minha lareira e o dia começa bem”. Tão simples! “Que maravilha!”.
A Ireninha tem uma grande bagagem e a “saudade de quem partiu” faz parte dela. Por vezes, “olho para o relógio durante a noite porque as horas não passam.” As noites não são fáceis, “gosto de me deitar tarde porque assim não penso no que não devo”. O sorriso continua no seu rosto, mas os seus olhos ficam mais brilhantes.
Neste seguimento, “a solidão identifica-se de diferentes formas”, afirma Andreia Rodrigues, psicóloga que traz na bagagem a relação com idosos em lares e hospitais. Por vezes, é invisível ao olhar. “Sente-se através do isolamento, das atitudes e até na forma como reagem em grupo”, defende a psicóloga.
A senhora do Gerês disse muito e ainda mais deixou por dizer. Espera contar com alguém que atenue a sua solidão. E onde a podem encontrar? “Logo que estejam disponíveis para uma boa conversa”, ela estará à janela à espera.

E depois do adeus
Quem está também sempre preparado para ter uma boa conversa é o Luís Gomes, de 73 anos. “73 anos e meio”, gosta de sublinhar. Sempre viveu em Braga e quando viaja fica ansioso para voltar a ver a placa a dizer “Bem-vindo a Braga”.
A casa cheirava a limpo, o pó era inexistente e a decoração continha muitas memórias. O Luís estava com a roupa passadinha a ferro e a fazer pandã.
Vive há seis anos sem a sua mulher mas mesmo assim mantém-se aprumado como ela prezava. É verdade, “o que mexe comigo, até hoje, é a morte da minha mulher, foi muito desgostoso. Vou-vos contar a história”. E contou!
Depois de ultrapassar vários problemas de saúde, a esposa do Luís foi travada por um cancro no pulmão. “Seis meses!”, palavras estas que saíram com muita dor e foram várias vezes repetidas. “Passado seis meses faleceu. Foram seis meses terríveis”.
Foi a primeira namorada e última. Luís não a deixou fugir, nem na hora do sofrimento. Partilharam vidas, amores e as batalhas. “A batalha que a minha mulher enfrentou ainda, hoje, é a minha maior batalha”. Ela perdeu! E hoje a saudade faz parte do dia a dia do Luís.
E depois do adeus? “Ela ainda está presente!”. Se precisar de algo mais complicado pede à sua filha senão “eu e ela fazemos tudo”. Há ligações que são inquebráveis, são raras, mas quando acontecem nem a finitude da vida consegue quebrar.
“Vou ser sincero, nunca passei à porta da solidão ou da depressão”. Curioso! Mas a forma como passa o tempo, também ajuda Luís a clarificar o pensamento. “Vou ao café para me pôr em dia com as notícias, converso com os amigos, durante a tarde e dou uma voltinha pela cidade”. Quando é preciso, “limpo e aspiro”. Faz tudo. “E assim, vou colmatando a falta dela”. Luís sabe que se não fosse a sua vontade de conviver, a solidão partilharia o teto com ele.
A sua personalidade é admirada por muitos. “Não sinto os 73 e meio”. Sente-se mais novo. Como é claro, o Luís não deixa nada por dizer e tudo é uma questão de “espírito. Sou uma pessoa positiva, não me lamento”.
Mas também tem medos. “Não tenho medo da morte, mas sim do sofrimento. O exemplo do meu pai e da minha mulher marcaram o meu percurso”.
O sofrimento antes da partida é algo muito constante na terceira idade. Marta Vilas Boas, a profissional da Anima Una afirma que “a partir de uma certa idade há o pensamento de finitude”. No entanto, esta não é a ideia que mais preocupa os jovens. É uma dor de cabeça da terceira idade. “As pessoas têm medo da doença, da dor e de não ter alguém para atenuar esse sofrimento”. Acabando, assim por “terem receio de estarem sós no sofrimento e na doença”.
No estudo anteriormente referido, procurou-se distinguir a percentagem de solidão no sexo feminino e no masculino. Desta forma, com 63,3%, o sexo feminino é o grupo onde se verifica mais traços de solidão.
A vida foi sua amiga?


"Não somos de cá"
Há vidas e vidas! E, neste caso, as rugas que chegaram com o tempo ao rosto delineado da Lucília Martins, de 83 anos, contam muitas histórias. Foram tantas as vidas e memórias que passaram por si.
De cabelos penteados, bem agasalhada, acompanhada pelas suas figuras religiosas e pelas fotografias dos vários familiares foi assim que a residente em Braga abriu o seu álbum da vida para se dar a conhecer.

Fonte: CINTESIS– Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, em parceria com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte.


“Fiquei viúva há 27 anos e assim vivo. Há 27 anos sozinha!”. A Cilinha, alcunha dada pelos seus amigos, é muito ajudada pelos seus vizinhos. “Toda a gente me conhece aqui na rua”.
Muitos aumentaram famílias, fizeram obras em casa e o bairro até acabou por crescer com a passagem do tempo. Cilinha viu tudo a acontecer e confessa: “fico muito triste quando morre algum dos meus vizinhos porque somos família”. É dolorosa a despedida.
A animadora da Anima Una explica que são as diversas vivenças que vão tornando a solidão uma constante na vida dos idosos, mas em proporções diferentes. Por vezes, os idosos nem chamam a solidão pelo nome. Escolhem outras palavras, mas o sentimento é o mesmo.
Lucília guarda todas os momentos na sua profunda memória. “Já dei muito que fazer aos meus vizinhos, mas não me esqueço das boas atitudes”. Tem um filho e duas netas de quem gosta muito de falar. “O meu filho queria-me levar, mas eu disse para me deixar aqui”. Não há nada como a casa onde fomos tristes e, principalmente, onde fomos felizes. Só pensa viver com o seu filho quando não conseguir tomar conta de si própria. “Não quero preocupar ninguém”.
Mas não se sente só? A resposta foi mais rápida do que se esperava. “No início senti, hoje, não!”. Qual é a receita? Vizinhos! “Se não fossem os meus amigos aqui da rua iria-me sentir muito abandonada”. Levam-na onde precisa e ajudam-na no que podem. “Vêm uma senhora buscar-me porque as pernas já não são o que eram”.
E quando questionada sobre o medo de estar sozinha, de viver sozinha que, por vezes, está associado à velhice a Cilinha afirmou “perdi o medo ao longo da vida”. Quando era mais jovem “até tinha”, mas a idade passou e a experiência enraizou-se. “Seja o que Deus quiser!”.
Lucília é cristã e ir à missa é algo que não dispensa. Desde sempre foi importante e hoje ir à igreja também é a oportunidade de encontrar os amigos. Reza e acredita muito. Gosta de guardar as figuras ligadas à igreja e esta crença faz com que se sinta acompanhada por algo superior. A propósito, a psicóloga Andreia defende as atividades em grupo, “mesmo as atividades mais simples são cruciais para os idosos se sentirem inseridos em algo”. Acrescenta ainda que “a velhice não tem de ser sinónimo de solidão”, no final da vida, “como comunidade, devemos preocupar-nos com quem nos criou”. A passagem do tempo e a respetiva velhice chegam a todos.
“Não somos de cá” era uma frase muito utilizada pelo marido de Cilinha e, hoje, também a idosa faz uso da mesma.
“Um dia temos de partir”. Tranquila. Acredita que “quando morrer vou ter com os meus pais e com o meu marido”. As saudades são muitas e as lágrimas são prova disso.
Percebe que o tempo tem vindo a passar e que a vida não é como a Primavera.
Primavera linda flor
Como tu não há igual
Vais e voltas sempre
E a mocidade vai e não volta mais
Sim, podem haver flores e até chuvas, mas na vida nada se repete. “O tempo é precioso!”.
Tic Tac Tic Tac
A história mais cedo ou mais tarde tem de acabar. E o final feliz acaba por estar nas mãos de cada um.
Não importa se se vive numa aldeia do interior rodeada de montanhas ou numa cidade cercada de prédios…
A solidão se tiver de bater à porta acaba por enfrentar todos os obstáculos. “Faz parte da vida!” refere Cilinha.
No entanto, pode ser recebida tanto pelos idosos como pelas pessoas que os acompanham de uma forma ativa. Como num conto pode existir um confronto. Mas quem saí vitorioso?
A solidão ou os idosos?